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21.11.16

Os sem­vergonha, por Sandra Helena de Souza

ESPECIAL CONSCIÊNCIA NEGRA:
RACISMO E HERANÇA AFRICANA

De “O Povo”


Os sem­vergonha

(20/11/2016)

Por Sandra Helena de Souza
Professora de Filosofia da Unifor; membro do Instituto Latino Americano de Estudos sobre Política, Direito e Democracia (ILAEDPD)

<<Estou farta de ver uma ~ macaca ~ de saltos>>

Que frase, leitores. Ela foi tuitada por uma americana “distinta”, eleitora de Trump, festejando o fato de que agora teria uma primeira­dama loira e rica, como convém. O rebuliço nos EUA só adveio do retuíte de uma prefeita americana, que disse ter ganhado o dia depois de ler essa singela afirmação dirigida à ainda primeira­dama Michelle Obama.


A vergonha é uma ferida moral muito mais civilizatória que a culpa. Desde cedo pais e mães têm de lidar com a difícil tarefa de ensinar os filhos a não se bolinarem em público por exemplo, quando muito infantes descobrem o prazer de se tocarem nas “partes”. Por falta de melhor argumento, a vergonha pública inicia o processo civilizatório, porta por onde entram as exigências de desculpas, pedidos de licença, agradecimentos e cumprimentos de praxe, obséquios aos mais velhos, obediência às normas e cumprimentos de etiquetas, essas tão caras aos salões e entrevistas de emprego.

Das normas básicas de etiqueta, seguem-se os costumes sociais mais amplos que envolvem os valores que a sociedade escolhe rejeitar de sua tradição e os que almeja estimular. É a dinâmica civilizatória que não se dá sem solavancos. Há uma tradição teórica exaustiva no século XX, depois dos horrores da segunda guerra e do holocausto em terras europeias que desfez o dualismo entre civilização e barbárie: aprendemos que a civilização está assentada sobre dejetos humanos, brutalidades, sevícias e crueldades de toda ordem. Esses teóricos tomaram consciência de nossa animalidade selvagem constituinte como um dado incontornável e tentaram nos alertar para o perigo sempre à espreita. Atenção, pois.

A revolução tecnológica dos últimos anos permitiu a tod@s, ou quase, exprimirem-se sem reservas em seus perfis pessoais em redes sociais. As famosas caixas de comentários de portais e blogs nos revelaram o que os teóricos apontaram. Antes perfis anônimos, aos poucos à vontade para exporem-se com seus nomes próprios e cargos, como a prefeita americana.

Até aí, tudo parecia sob controle. Mas as condições econômicas e culturais de uma crise do capitalismo neoliberal em dimensão global e geopolítica trouxeram de volta os celerados da tradição humana mais nociva, anti-iluminista, segregacionista, racista, machista, fóbica de qualquer diferença normativa, e sobretudo elitista.

Sem pudores, sem mal­estar, gozando na típica agressividade dos impotentes, esses humanos menores que se recusam a uma maioridade emancipada emergem como os zumbis cinematográficos de suas cloacas com uma fúria vingativa contra os parcos avanços civilizatórios das últimas décadas, mundo afora, paradoxalmente usando um valioso instrumento dessas conquistas: a liberdade de expressão.

Foi com esse argumento que a Comissão de Ética (oi?) da Câmara Federal absolveu o deputado Jair Bolsonaro por fazer homenagem a um torturador em sessão pública em rede nacional.

A tortura é crime imprescritível contra a humanidade. E daí, não é mesmo? Isso não chegou aos nossos esgotos. A prefeita americana teve que se retratar pelo racismo. Entre nós, apenas a vergonha. Ou a falta dela


Um comentário:

  1. Gostei muito do artigo, Sandra. Um prazer ler uma escrita tão clara e perfeita no estilo. Aí sua sábia observação sobre vergonha e castigo me fez lembrar que é em outro tipo de sociedade que a vergonha funciona como princípio de civilização. São sociedades da HONRA e da vergonha. Aquelas nas quais o indivíduo vale pelo que vale o significado de sua presença no espaço público. Na Grécia era assim. Ulisses declara (com sua costumeira astúcia) chamar-se "Ninguém" para cegar o gigante Polifemo, mas proclama sua identidade - com genealogia e títulos, completa; Odisseus filho de Laete, pai de Telêmaco, rei de Ìtaca - ao voltar em glória para casa, como herói da guerra de Troia. Uma sociedade inteiramente individualista, mas veja a distância com relação ao individualismo possessivo da moderna sociedade capitalista! Lembrei de uma gravura espanhola - acho que ilustração do Quixote - em que um sujeito é submetido à pior punição: ser coroado de galhos, montado de cara para trás em uma mula e assim ter que atravessar toda a cidade, sob o riso e os apupos da multidão. Na Grã-Bretanha, a variante era ainda mais refinada: sair "tarred and feathered" (coberto de piche com penas coladas em cima) e assim ter de enfrentar a ira do povo! Aí a gente entende que vergonha só tem sentido quando a perda da honra é o verdadeiro castigo. Como a honra só se constrói no espaço público, da vida pública - portanto, política - a gente entende também por que, infelizmente, neste país (só aqui?) de pouco adiante clamar pela vergonha dos que a perderam há muito tempo, se alguma vez tiveram... Só nos resta mesmo sofrer pela vergonha alheia. Triste lição do seu belo texto

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