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28.9.17

Identitarismo, imigrantes asiáticos e seus descendentes: brasileiros ou eternos forasteiros?

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Identitarismo, imigrantes asiáticos e seus descendentes: brasileiros ou eternos forasteiros?

Por Alexandre Kishimoto (& Romulus)

Nota - Romulus:


Texto escrito em resposta/ crítica a determinadas colocações feitas no post (de autoria coletiva, inclusive minha) <<Trump, Coreia do Norte e (mais?) “excesso” de “politicamente correto identitário”: “oriental” vs. “asiático”>>, de 22/9/2017.





IMPORTANTE:


Como haverão notado no tweet, o título original incluía ainda a expressão “xing-ling”.


Na minha ignorância (quando o termo surgiu já morava fora do Brasil), não sabia que era aplicado, de forma também pejorativa, a imigrantes asiáticos e descendentes no Brasil. Acreditava que valia tão somente para gadgets (bugigangas?) falsificados, made in China, de má qualidade e durabilidade.


O equivalente contemporâneo a, nos anos 1970/ 80 – época de economia fechada, dizer que algo importando era “paraguaio”.


(o que será que os paraguaios pensam disso, hein??
🤔)


Pois o Alexandre Kishimoto, coautor deste post, corrigiu a minha percepção equivocada e afirmou que o termo não só é usado de forma depreciativa para com os asiático-brasileiros, como, em consequência, é por eles percebido como extremamente ofensivo.


Lição aprendida, Alexandre... obrigado!


*


Passemos, então, ao texto dele.


*

Há sim ativismos políticos dos asiático-brasileiros há muito tempo no Brasil. E não se trata de nenhuma má tradução ou cópia do ativismo dos direitos civis dos EUA. O Perigo Amarelo, essa sim foi uma formulação vinda da xenofobia de lá e implementada com sucesso no Brasil nos anos 1920 e 1930. Nos debates acerca do branqueamento da população do país com as imigrações, ainda antes disso, os japoneses foram caracterizados pelos intelectuais e pela diplomacia brasileira como raça inferior, feia, insolúvel como enxofre e traiçoeira.


(Romulus: Certamente.
E mesmo antes disso: houve discursos de Senadores, registrados nos anais da Casa, refletindo esse preconceito racial.
No caso, na oportunidade – virada do Século XX – o Brasil mantinha política pró-imigração.
No “aftermath” da “Revolta dos Boxers”, havia grande pressão emigratória na China.
Pois houve Senador que foi à tribuna dizer que “era só o que faltava para a danação final do Brasil... como se já não bastassem os negros africanos para atrasar o país, ainda se cogita a vinda desses amarelos!”)


Houve um primeiro movimento de afirmação identitária dos imigrantes japoneses quando foram proibidos de educar seus filhos em japonês, portar livros, conversar na língua, ir e vir, ser dono de empresas, residir no litoral ou no centro da cidade de SP, encontrar outros japoneses ou festejar em público e praticar suas tradições culturais. Há relatos de aprisionamento de japoneses e seus descendentes em campos de concentração em SP, PR e PA. Isso ocorreu durante o Estado Novo e na vigência da guerra, período em que de acordo com o historiador Roney Cytrynowicz (2000) o Estado brasileiro moveu contra os imigrantes japoneses uma campanha racista em larga escala, uma repressão mais direita e violenta do que em relação aos demais estrangeiros, e que se estendeu até o pós-guerra.


(Romulus: pelo que li certa vez, a perseguição se deu em termos piores, inclusive, que àquela destinada a alemães e italianos.
Diferença “inusitada” que só se explica pelo racismo eurocêntrico, uma vez que o Brasil só tomou parte do teatro de guerra europeu.
Salvo engano – escrevo de cabeça... – li certa vez estudando Direito Internacional Privado na pós-graduação que expropriações de bens de nipo-descendentes à época da II GM foram feitas SEM indenização.
Diferentemente do que foi feito com relação às propriedades de alemães e italianos)


Incidentes relacionados a este período foram retratados num livro sensacionalista de Fernando Morais, cujo ponto de vista reproduziu o da polícia política da época. Até hoje Morais compara a ação dos integrantes do Shindo Renmei às do fundamentalismo islâmico. Outros pontos de vista ressaltam o racismo de estado perpetrado na época contra os japoneses, propondo interpretar este episódio, por exemplo, junto com outros movimentos messiânicos-milenaristas brasileiros que se insurgiram contra o Estado.


Na outra ditadura civil militar, dezenas de jovens asiático-brasileiros engajaram-se na luta contra a ditadura, muitos na luta armada, como o Mário Japa (ou Mario Osava), braço direito de Lamarca, e Sueli Kanayama, que morreu fuzilada no Araguaia. Vários estudantes nipo-brasileiros constam das listas de mortos e desaparecidos durante a ditadura. Há também o trabalho do artista visual Mario Ishikawa, que combatia a ditadura em obras de arte enviadas pelo correio e cujas obras iam à público nas manifestações estudantis, como na faixa em que se criticava os EUA em solidariedade ao povo do Vietnã.


No pós-guerra, os imigrantes japoneses e seus descendentes experimentaram uma rápida e relativa ascensão social (não há muitos nipo-brasileiros milionários), tiveram acesso ao ensino superior de qualidade e passaram a ter seus direitos respeitados. Num país em que a brancura é critério de cidadania, se embranqueceram, ou acharam que o fizeram, mas continuaram a ser tratados como amarelos, não-brasileiros ou como eternos forasteiros.


Os asiático-brasileiros estão há mais de cem anos no país.


*


Parêntesis “caótico-digressivo”


Romulus: o primeiro navio trazendo imigrantes japoneses foi o Kasato-Maru. Saiu do Porto de Kobe, no Japão, e chegou ao Porto de Santos em junho de 1908. A viagem durou mais de 50 dias.

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*



Kasato Maru (笠戸丸) foi o navio que, em 1908, transportou o primeiro grupo de imigrantes japoneses vinculados ao acordo estabelecido entre o Brasil e o Japão.


História
O Kasato Maru foi originalmente um navio russo chamado Kazan


Em seguida, passou a ser utilizado para transporte de imigrantes japoneses para o Havaí, em 1906, e para o Peru e o México, em 1907.


Kasato Maru no porto de Santos.
Em 1908, trouxe o primeiro grupo oficial de imigrantes japoneses para o Brasil. A viagem começou no porto de Kobe e terminou, 52 dias depois, no Porto de Santos em 18 de Junho de 1908. Vieram 165 famílias (781 pessoas) que foram trabalhar nos cafezais do oeste paulista.


Alguns imigrantes japoneses chegaram ao Brasil antes do Kasato Maru, e até chegaram a fundar uma colônia agrícola na fazenda Santo Antônio, no atual município de Conceição de Macabu (então distrito de Macaé), no estado do Rio de Janeiro. Entretanto, foi a chegada deste primeiro grupo trazido pelo Kasato Maru que iniciou um fluxo contínuo de imigração de japoneses para o Brasil.


Depois de algum tempo, Kasato Maru foi transformado em navio cargueiro e ainda voltou ao Brasil uma segunda e última vez, em 1917, transportando cargas a serviço da Osaka Sosen Kaisha (OSK) Line.


Em 1942 foi requisitado pela Marinha Imperial do Japão e passou a fazer parte da esquadra japonesa na Segunda Guerra Mundial como navio de apoio.


No dia 9 de agosto de 1945, foi bombardeado por três aviões russos das 11h15 às 14h30. Afundou a seguir no mar de Bering nas águas russas próximas da Península de Kamchatka. Está atualmente submerso a uma profundidade de 18 metros e em bom estado de conservação.


Expedição de resgate
Pretende-se realizar uma expedição para recuperar algumas de suas peças como as duas âncoras, que pesam cerca de nove toneladas cada uma, o leme e o sino, para serem expostas em museus brasileiros. A Marinha brasileira se dispôs a participar da operação e aguarda autorização do governo russo.


Em fevereiro de 2016, o jornal Folha de S.Paulo informou que, em julho do mesmo ano, uma equipe da Sociedade Geográfica Russa mergulharia no local de seu naufrágio para resgatar peças ainda preservadas. (...) Após serem expostas em Moscou e outras cidades russas, eles iriam para o Brasil em 2017. O destino final delas não é certo, mas provavelmente a maior parte ficará nos estados de São Paulo e Paraná, por terem recebido o maior número de imigrantes.


*


Familiares despedindo-se no Porto de Kobe
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A rota de 52 dias
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Imigrantes a bordo
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Lista de passageiros
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A imprensa de SP registra a chegada
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Cafezais: a dura vida na chegada
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*


Mas...


Como estamos no Brasil...


Em 2008, ano do centenário, é claro que tudo isso acabou em samba na Avenida:

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*

E – só no Brasil, não é mesmo, minha gente? – uma nipo-brasileira paulista ganha o Carnaval do Rio!, na qualidade de rainha da bateria da escola de samba do bairro de Noel Rosa!!

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*


Fim do “caos digressivo”...


Voltemos ao texto do Alexandre.


*


No entanto, persistem as piadas e estereótipos raciais que o associam ao falar errado do imigrante recém chegado ou a ser uma espécie de Zé Mané, um idiota, incapaz de interagir socialmente ou de se expressar corretamente na sociedade brasileira. “Pastel de flango”, “Japonês garantido, nô? “Xing Ling” são exemplos deste tipo de “humor” xenófobo. Essa imagem é corriqueira nos comerciais televisivos, nas piadas de stand up comedy, em memes e artigos “progressistas” (!), etc.


*


Pausa “caótico-digressiva” (2)


Romulus: “progressistas” (aspas!)


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- ATÉ TU, deputada (identificada com a luta das minorias e pelos direitos humanos...) E-RI-KA KO-KAY?!!


0_o


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Nota:


Tenho conhecidos no “establishment” chinês. A expressão “negócio da China” é EXTREMAMENTE ofensiva no país!


Mesmo o habilidoso Presidente Lula – que sabe TUDO de resgate de orgulho nacional!, certa vez em visita cometeu a enorme gafe de empregar a expressão. Fez isso ao exaltar, de maneira infeliz, as enormes oportunidades de negócios com a aproximação entre os dois países-continente – Brasil e China – no âmbito do BRICS.


Publicado por: Rainer Gonçalves Sousa em “Curiosidades”
(sem data)
MUNDO EDUCAÇÃO


Ainda hoje, a expressão “negócio da China” é usualmente utilizada quando alguém obtém algum tipo de acordo bastante vantajoso. De fato, a concepção desse termo remonta o grande interesse que os comerciantes da Europa tinham em buscar as mercadorias oferecidas pelos chineses e outros povos asiáticos. No século XV, por exemplo, a Coroa Portuguesa conseguiu alcançar um lucro superior a 6000% com a venda de produtos obtidos na Índia.


Chegando ao século XIX, essa expressão também ganha força no momento em que a economia capitalista vivia um período de visível expansão. Nessa época, os britânicos cobiçavam a exploração do vasto mercado consumidor chinês, assim como o uso de suas matérias-primas e a numerosa força de trabalho disponível. Para tanto, era necessário que tivessem um grande poder de interferência nas instituições daquela nação.


Indiferentes às demandas da Inglaterra, os chineses não tinham o mínimo interesse em abrir portas para que os britânicos participassem do cenário político do seu país. Foi então que a Coroa Britânica decidiu invadir a China na série de conflitos que marcaram as Guerras do Ópio, ocorridas entre 1839 e 1860. Após subjugarem as autoridades daquele país, os ingleses passaram a estabelecer diversos monopólios comerciais que lhe garantiram um polpudo “negócio da China”.


Por Rainer Sousa
Mestre em História


Romulus: inclusive com a humilhante cessão de Hong Kong com o Tratado de Nanquim e o saque e incêndio do Palácio de Verão, principal residência da família imperial:


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Acreditem em mim, pois relato apenas o sentimento que ouvi em primeira mão:


- Para um país milenar, isso foi ONTEM!


(a guerra com o Japão então...
Mas isso é outra história...)


Até cachorrinhos da raça pequinês – exclusiva da realeza imperial chinesa – foram roubados como butim do Palácio, antes da sua destruição.


Foram presenteados, inclusive, à “mandante” do crime: a Rainha Vitória.


Foi com esses exemplares que se iniciou a disseminação da raça no Ocidente.


Quer dizer: a partir dos poucos exemplares (menos de meia dúzia!) que sobraram no Palácio depois da evacuação da realeza:

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Sim: é isso mesmo que você leu!


A descarada da Rainha Vitória teve cara de pau de batizar o cachorrinho de “Looty” (!)


Ou seja: “butinzinho”/ “espoliozinho de guerra” (!)

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*


A esse propósito...






Uma vez perguntei a um amigo PhD britânico, num arroubo de moralismo (eu sou humano!), como ele “não morria de vergonha da Guerra do Ópio”.

Pois sabe o que ele me disse?


<<Você não pode culpar um leão por...
- ... matar uma zebra na Savana!>>


Horrível, né?

Mas é verdade!


*


Nem preciso dizer como certos chineses reagiram diante da inconfidência que fiz depois, num arroubo de “South-South camaraderie”, não é mesmo??



😬 😬 😬


*


Lá e cá...


“Leões e Zebras”...


Pergunta:


É o mesmo que dirá outro PhD, desta feita AMERICANO, daqui a outros 100 anos, ao tratar da “guerra híbrida” para destruição do projeto de desenvolvimento autônomo do Brasil, de que ora somos vítima?


Sim ou com certeza??


(suspiro)


😪


*


Mas chega de “digressão caótica”...


Voltemos ao Alexandre, para a sua conclusão.


*


Expressões que seriam consideradas racistas em outros lugares são naturalizadas no Brasil como meras piadas.


As mulheres asiáticas têm seus corpos fetichizados e seu suposto comportamento sexual exotizado como gueixas passivas ou por meio da hipersexualização. Fenômeno semelhante é relatado por homens gays asiático-brasileiros. Quanto aos homens héteros, são comuns as piadas que se referem a eles como tendo "pinto pequeno", inclusive em telejornais, como feito por Boris Casoy no Jornal do SBT.


Aliás, no telejornalismo e mesmo nos blogs de esquerda, se convencionou chamar o agente da PF Newton Ishii de “agente japonês”.



(Romulus: o “japonês da Federal”)



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Se este tratamento fosse para todos, por quê também não chamar Dilma Rousseff de ex-presidente búlgara, Paulo Maluf de ex-governador libanês e Suzane von Richthofen como homicida alemã?


Sobre os chineses, é bastante comum o estereótipo de que são sujos, incluindo seus restaurantes de culinária chinesa no Brasil, traiçoeiros no comércio e que todos matam e comem cachorros. Sobre os coreanos é comum o comentário de que eles foram e são os responsáveis pela escravização dos bolivianos no bairro paulistano do Bom Retiro, e não a cadeia produtiva da moda, não o sistema capitalista. Notamos uma proliferação de expressões racistas e xenofóbicas contra os asiático-brasileiros nas redes sociais e nos comentários de matérias jornalísticas. Numa capital nordestina, um psicólogo, amigo, descendente de asiáticos, foi recentemente agredido fisicamente dentro de um ônibus devido a sua origem étnica.


*


Pausa “caótico-digressiva” (3)


Romulus: última intervenção minha... prometo!


Mesmo sendo carioca, passei a infância e pré-adolescência em São Paulo, para onde meus pais foram então transferidos.


Tive diversos coleguinhas japoneses na sala de aula.


Do sobrenome de alguns até me lembro, inclusive: Asakawa, Ushinaka, Hachyia...


Acredite:

- A minha primeira namoradinha – na terceira série!, “Bruninha”, embora ostentasse um sobrenome italiano...



- Tinha traços tipicamente...



- ... japoneses (!)



(coisas de SP, né?? 😉)


Já do japonês da “turminha” do condomínio não lembro o sobrenome...


(ou sequer o nome!)


Isso porque, juntando no pacote homofobia, só o chamavam de “Sakura” (“Cardcaptor”) (!)

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*


Você corretamente aponta que:



Sobre os chineses, é bastante comum o estereótipo de que são sujos, incluindo seus restaurantes de culinária chinesa no Brasil, traiçoeiros no comércio e que todos matam e comem cachorros.



De acordo.


Mas...


Vamos aqui combinar (acknowledge) que, como em muitas outras formas de preconceito, o padrão de caricaturar e reforçar estereótipos é muitas vezes reproduzido por parte das próprias vítimas!


Como você bem disse, parte do preconceito de que são vítimas os imigrantes chineses no Brasil inclui a adjetivações como “sujos”, “sem higiene”, etc.


No trabalho da minha mãe, na filial de uma empresa estatal em SP, havia uma grande “colônia” de nisseis. Um membro dessa “colônia” ocupava, inclusive, a chefia da Seção.


Tenho de dizer que, quanto aos chineses, minha mãe ouviu dos nisseis (!) exatamente o que você relata – só que ainda com mais “ênfase”, como resultado do “conhecimento (milenar!) de causa” (!)


E mais ainda:


- De que seriam “mentirosos”, “traiçoeiros”, “trapaceiros”, “não confiáveis”...


Quando minha família viajou à China no início dos anos 2000, não faltaram recomendações de...


- ... muito cuidado com essa gente (!)



Pior:



- Quando voltamos e minha mãe relatou o seu encantamento com o país e o seu povo...



- ... soou como ALTA TRAIÇÃO (!)


0_o

*


Desconfiança mútua


Ademais, havia ali naquele ambiente de trabalho a percepção generalizada, real ou não, de que a “colônia japonesa” cuidava dos seus melhor do que dos demais, “ocidentais”. Inclusive em termos de promoções, aumentos, etc., por ocupar a chefia.


Havia, em certo grau, até mesmo um comportamento de “panelinha”, em que os não-nisseis se sentiam excluídos das conversas, das fofocas, dos encontros e confraternizações extra-empresa, etc.


Com o tempo, minha mãe (que é workaholic como eu...) acabou caindo nas graças do chefe nissei...


Anos depois, quando finalmente resolvemos voltar para o Rio de Janeiro, de maneira “fofa”, o chefe não deixou de expressar a decepção com a partida dela.


E arrematou com o maior “elogio” que poderia fazer àquela “ocidental”:



- Poxa, que pena que você vai embora... você não é como “eles”... você é honesta, séria e trabalhadora como...



- ... “a gente” (!)


*


Quem me lê há mais tempo, deve lembrar que a minha família é uma típica salada étnico-religiosa brasileira...


Com lugar para uma avó católica/ “cripto-candomblecista” e outra filha de imigrantes italianos, praticante de um catolicismo popular, na qualidade de “benzedeira”, ela e as (numerosas!) irmãs.


Para tornar o ambiente em que cresci ainda mais interessante, uma tia “ousou” casar com um judeu.


(não sem resistência de ambas as famílias, registre-se...)


Vencendo a resistência, na sequência meu tio e minha tia resolveram criar as filhas na religião do pai. Minhas primas estudaram, portanto, em colégios israelitas a vida toda, até a faculdade. Falam hebraico, frequentam a sinagoga de forma “não praticante” (tipo quem só vai à “Missa” no Natal, na Semana Santa, em batizado, casamento e Missa de sétimo dia, sabe??).


Ambas moraram, até mesmo, por algum tempo em Israel, antes da faculdade.


(onde, acredite: minha prima teve um rolo com um professor de capoeira...
- ... filho de judeus russos (!)
Haja “soft power” cultural brasileiro, né??)


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(ver:
31//2016)


Pois então...


Infelizmente minha tia tem relatos horríveis de preconceito enfrentado por ela, enquanto “gói” (não judia). E até mesmo pelas meninas, como filhas de “casamento misto” e de “ventre não judeu”.


Chegando ao PAROXISMO, ela inadvertidamente foi a uma reunião de pais convocada na escola para discutir um tal de “holocausto branco”. Achou que era alguma releitura dos fatos da II GM...


Que nada!


Chegando lá, o tema em pauta era:


“a melhor maneira de doutrinar as crianças desde cedo para que os pais lutassem, em suas casas, contra ‘o fim da raça’...


Isso porque o ‘holocausto branco’ – os CASAMENTOS MISTOS (!) – estavam sendo mais efetivos no extermínio dos judeus do que...


- ... HITLER (!!!)


*


Sim, acredite: foi isso mesmo!


0_o


*


Minha tia, a pobre, foi inadvertidamente...


(no nome de casada ela ficou apenas com o sobrenome judaico...)


- ... comparada pela equipe PEDAGÓGICA (!) da escola DAS FILHAS a Hitler!


- E comparada para “pior” (!)


- Seu ventre exterminava mais que Câmara de Gás (!)


Quando ela, muito emotiva, se deu conta do que se passava, abriu o berreiro...


E aí foi providencialmente “resgatada” por uma amiga judia, “pura” (!), mãe de uma coleguinha da filha, que tomou as suas dores: começou a gritar com a “equipe pedagógica” em sua (apenas?) defesa. Depois de falar todos os desaforos possíveis e imagináveis, tomou-a pelo braço e saíram ambas dali batendo a porta!


*


Como disse, por ter mudado o nome, muitos na comunidade judaica não se davam conta de que minha tia era “gói”. Nem tampouco de que minhas primas eram filhas de casamento misto.


Muitos anos mais tarde, quando passei em primeiro lugar geral num muito disputado vestibular de universidade pública, minha tia, orgulhosa, foi contar vantagem para as amigas (judias), claro.


Primeiro comentário:


- Po, nós judeus somos foda mesmo, né?


- Inteligência superior, sabe...


- Fazer o quê?


*


(!)


0_o


*


Pergunta incidental:



- EXISTE PRECONCEITO...



- ... “DO BEM”?!



🤔


*


- VALE CONSTRUIR A AUTO-ESTIMA DE UMA MINORIA ÀS EXPENSAS DE OUTROS GRUPOS SOCIAIS?


🤔


*

Lembram do "rolo" que a minha prima teve com aquele filho de judeus russos professor de capoeira em Israel?

Pois então...

Não acabou nada bem!

Ele a rejeitou - de pronto! - no momento seguinte a ela "tomar coragem" (!) e "revelar" (!) para ele a "mancha" que trazia escondida:

- Sua mãe era, afinal, "gói".

Resultado(s):

- Um coração (duplamente!) partido...

- Estadia em Israel peremptoriamente abreviada...

- Volta para os generosos braços de "mamãe gói" no Brasil...

(tão acolhedores quanto os da mais superprotetora "mama yiddishe", por que não??)

- Para que ambas lambessem, juntas, a "ferida" - afinal COMUM às duas.

*

Passa o tempo e a prima conhece outro rapaz no Brasil, também judeu.

"Quer dizer..." (!)

Esse era tão ("menos") "judeu" quanto ela, por ser também filho de um casamento misto, criado dentro do judaísmo e da comunidade judaica.

"Quer dizer..." (!) (2)

Aos olhos da "ortodoxia", ele é UM POUCO mais judeu do que ela...

(mas não muito...)

Isso porque o "gói" na família dele é o pai - e não, como no caso da minha prima, a mãe.

Dessa forma, cumprindo o "requisito" estabelecido no Talmud e na Torah para a aferição de "judaísmo étnico", ELE (mas não ela...) nasceu de "ventre judeu".

Como disse, pela "ortodoxia" ele é "mais judeu" que ela MAS NÃO MUITO...

Malgrado vir de "ventre judeu", enfrentou preconceitos parecidos com o que ela teve de encarar durante toda a vida crescendo dentro da comunidade judaica.

*

Haveria alguém mais indicado para ser o parceiro dela para toda uma vida??

E para dividir a dor e a revolta quando alguém osar dizer, à boca pequena, que os filhos dela "não são judeus coisa nenhuma"??

*

(suspiro)

*

Passa mais tempo ainda...

E...

Semanas atrás (!), recebo novidade bombástica dessa mesma prima no grupo de Whatsapp da família:






*

😮 😮 😮

*

"Nós", do lado "gói" da família, estamos curiosos para saber qual das sugestões de nomes que demos ela vai escolher:


- Jacozinho ou Moisesinho??


😂
*

Depois conto para vocês...

*


Tudo isso para dizer que, embora tenham uma luta COMUM contra o “racismo” – o “genérico”!, parece que muitos membros de minorias raciais tendem a agir de forma incoerente.



Parecem seguir a máxima de que...



- ... “cada caso é um caso” (!)



E de que...



- ... pimenta no ©µ dos outros é refresco (!)


*


Ressalva:


- É evidente que aqui trago, tão somente, relatos pessoais, subjetivos...


Anecdotal evidence, como dizem os gringos...


Sem nenhum valor “científico” ou extrapolação possível quanto à sua representatividade no todo da sociedade e do comportamento, em geral, de membros dessas minorias.



- Essa foi a MINHA vivência.



- Minha e da MINHA família.

*

Pronto...


Devolvo a palavra ao Alexandre para ele fechar o post.


*


Atualmente há diversos coletivos de militância asiática-brasileira, com diversos focos: feminismo (Lótus Power), LGBTQ (Asiáticos Pela Diversidade), Perigo Amarelo, blog Outra Coluna, coletivo Estudos Asiático-Brasileiros, canais de vídeos Yo Ban Boo, Oriente-se e Kores do Brasil. Em comum à maioria, o sentimento de solidariedade à luta antirracista como um todo, uma identificação com o campo político da esquerda e a formulação de uma identidade comum entre os diferentes imigrantes asiáticos no Brasil, incluindo os oriundos do Oriente Médio.


Alguns links para saber mais:


Um vídeo que editei que discute a questão do “japonês da Federal”:





Um vídeo do canal Yo Ban Boo que explica porque o termo “pastel de flango” é ofensivo:




Depoimento de Sueli Kanayama recriado para a Comissão Estadual da Verdade:









Dois casos recentes em que foi necessário o estranhamento estrangeiro a um ato racista que é naturalizado no Brasil como mera piada:

- Polêmica Glamour Brasil e o "Inocente" Ato de Puxar os Olhos:




- Por que o Tenista Brasileiro fez Gesto Racista?





A diferença entre “rir com o outro” e “rir do outro”:




*



*



*



*



Romulus – comentário final:


Obrigado, Alexandre, por nos trazer esse rico panorama de luta, bem como dos movimentos identitários asiático-brasileiros.

Diminuiu, assim, a ignorância.

Inclusive a minha!

Diante dos relatos que fiz, você pode imaginar o quanto folgo em saber que há nesses coletivos...



(...) o sentimento de solidariedade à luta antirracista como um todo, uma identificação com o campo político da esquerda e a formulação de uma identidade comum entre os diferentes imigrantes asiáticos no Brasil.



Gostaria de saber, de alguém de dentro, o grau de sucesso – ou ao menos de evolução! – nessa iniciativa.


Chineses e japoneses juntos numa causa:



- Wow!


😉





*   *   *



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- E no Twitter:




*

Achou meu estilo “esquisito”? “Caótico”?

- Pois você não está só! Clique nos links (4 volumes já!) e chore as suas mágoas:



















  



*

A tese central do blog:





*


Quando perguntei, uma deputada suíça se definiu em um jantar como "uma esquerdista que sabe fazer conta". Poucas palavras que dizem bastante coisa. Adotei para mim também.

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