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23.5.17

Parábola multi-sincrética de duas tribos em guerra: ~isso~ é política

Originalmente publicado no GGN em 12/4/2016


Parábola multi-sincrética de duas tribos em guerra: ~isso~ é política!


Por Romulus

Um índio velho, "aculturado" desde que veio para a "civilização" na meia idade, decidiu permitir-se um capricho na senioridade: pegar um avião para vir conhecer, in loco, o chocolate suíço. Ouvira dizer que o cacau a 100% dos Alpes era o que mais lembrava a bebida sagrada dos primos Astecas de outrora.

Sabia que haveria de ter nessa terra estranha alguém que falasse a sua língua. Resolveu procura-lo então nas redes sociais e em blogs (eta, índio antenado!). O destino fez com que de todos os muitos lusófonos vivendo nestas paragens, ele viesse a encontrar não outro que a mim, imaginem vocês. Ficamos amigos e tivemos longas conversas depois que ele aqui chegou em sua busca pelo chocolate.

Vendo minha angústia atual, acendeu o inseparável cachimbo e contou-me uma parábola, uma dessas histórias cheias de simbologias e significados ocultos. Histórias das quais extraímos metáforas e extrapolamos algumas conclusões. Talvez para a vida. Ou quem sabe não.

Como quem me contou é índio sim mas também brasileiro – e aculturado – a parábola está banhada no sincretismo, esse dom do nosso povo de sintetizar a tese e a antítese e criar algo novo, que não é nem uma coisa nem outra. Não estranhem: por sincrética, a parábola tem floresta, índio, cruzada santa, cemitério indígena amaldiçoado, almas penadas, exorcismos neopentecostais de TV e outros encontros fortuitos que só se dão no Brasil.

Ainda interessados? Então vamos à história que me contou o sábio índio, vovô Jararaca-sentada:

Duas tribos lutavam com unhas e dentes por uma mesma floresta. Os dois povos se odiavam desde tempos imemoriais. Mas, temendo a mútua aniquilação, os respectivos caciques e xamãs encontravam-se secretamente na cachoeira, onde o barulho das águas abafava as conversas que não deviam dali escapar. Formulavam versões sucessivas de um pacto de sangue que finalmente pudesse ser aceito pelos dois caciques.

A guerra era "santa". Uma cruzada do "bem contra o mal". Mas poderia trazer também a aniquilação total. Com o pacto de sangue que propunham, a guerra poderia ser evitada. Guerra de extermínio, bem entendido, mas um extermínio em uma gloriosa causa. Os mártires haveriam de ir todos para o céu, cria a maioria.

A partir do tal pacto, as perdas humanas das tribos dali por diante seriam limitadas a pequenas rusgas na mata fechada. Somente quando houvesse encontros fortuitos entre os respectivos grupos de caçadores. Mas isso era algo do jogo desde que Tupã Krishina criara o mundo.

A (re-)"pactuação" entre caciques e xamãs não seria vitória nem derrota total. Era meia vitória / meia derrota - para ambos os lados. Ninguém sairia com o que queria. Ao contrário, todos sairiam meio vencedores e meio perdedores. Mas sairiam. Ponto.

O prêmio por lutar exclusivamente pela "vitória total" – causa justa e permitida pelas regras e costumes das tribos - poderia (disse-me o índio: “poderia”... no condicional...) ser a vitória naquela "cruzada"... mas vitória de Pirro. Quem viesse a ser a reencarnação amazônica desse antigo general continuaria cacique, caso fosse o único que continuasse de pé ao final. Isto é: depois de lavar o pecado da terra com o sangue dos índios justos naquela luta infernal. Esse seria o sacrifício supremo a Tupã Krishina, que criara seu povo num porre de cauim.

- Sim, continuaria cacique. Mas agora de um silencioso cemitério - e cemitério indígena, vejam bem.

Nota: Para que eu compreendesse melhor as implicações de morar em um “antigo cemitério indígena”, o velho índio recomendou que assistisse ao filme "Poltergeist" no Netflix (eta, índio antenado! (2))

Voltando à história, havia mais um detalhe: o "cacicado" tinha tempo marcado para terminar: dali a dois anos e meio. Em tal data o próprio Tupã Krishina ameaçava voltar, desgostoso com o conflito que se arrastava e não saia do impasse.

Em tom solene o meu amigo índio proclamou: “aos homens não é dado conhecer o que Tupã Krishina fará”. Dessa forma, não havia xamã que pudesse afirmar com tanta antecedência o que o severo deus faria dali a dois anos e meio.

Para dificultar ainda mais a decisão, havia riscos mesmo na vitória total na tal guerra santa. Os xamãs dos dois lados mandavam avisar que depois da guerra, independentemente de qual cacique fosse o último a ficar de pé, as almas penadas daqueles que caíssem ao longo dos dias de batalha voraz voltariam para atormentar o cemitério.

O cacique tinha grandes planos para o local. Sonhava vê-lo coberto de verde novamente. Mas a assombração das almas penadas não permitiria que um vasto pomar, sonhado pelo cacique, crescesse no local. Em vingança, essas almas malditas fariam tudo gorar e secar... todas as mudinhas de árvore.

Os caciques sabiam por relatos da oralidade que a oferta de frutos tinha o condão de pacificar muitas almas em tribos conflagradas. Dos dois lados. De forma que os índios a quem não faltassem frutas costumavam voltar ao seu juízo habitual. Não se esperava desses índios que apelassem para alternativas amalucadas diante do desespero da ausência de frutos.

Os caciques imaginavam que, comendo apenas milho velho naqueles anos até o fim do cacicado, não havia pajelança ou tele-exorcismo neopentecostal capaz de impedir as almas penadas de voltarem com tudo, incorporarem nos índios sobreviventes e exilarem o cacique e sua família por 20 anos no mínimo. O tempo de uma geração.

Assaltavam o cacique grandes dúvidas: o que seria melhor para ele? E para sua família? E para toda a tribo? O cacique teria de escolher entre: (1) a "cruzada", justíssima e moralíssima, ou (2) aquele pacto que faria até sua mãe cuspir em seu rosto quando voltasse com a "boa" nova. Escolheria entre a bendita "vitória total", de Pirro, ou uma meia vitória / meia derrota, desde logo alcunhada de "A Grande Covardia" ou "A Vergonha".

Não pensem que a decisão do cacique era fácil. Muito pelo contrário. Anos e anos de imbróglio já se somavam, com perda gradual de sangue de lado a lado.

Antes de decidir, ele procurou filósofos na “civilização” para aconselhar-se. Ao ouvir o relato do cacique, vieram eles com nomes estranhos para encaixar nas opções, mas cujos significados o cacique estranhamente compreendia. Enunciava um dos filósofos: “a Política, goste-se ou não, é terreno para considerações alheias à Lei e à moral do indivíduo. É para os fortes de estômago e de fígado leve, com pele grossa e memória fraca, que facilmente esquecem estocadas dos que até ontem eram tidos como inimigos”.

O cacique compreendeu, mas disse que seria difícil explicar isso aos seus na tribo. O filósofo ofereceu então uma tradução metafórica para aquela tal de política: “é a arte de intuir – olhando tudo em volta - quando se está cacifado para meter o dedo no olho do adversário e ganhar terreno e quando se está cacifado apenas para levar dedada no próprio olho e recolher-se ao seu canto. E em silêncio. Inclusive momentos há em que não se furam os olhos de ninguém, porque ambos concordam em amarrar as próprias mãos e a ficar parados no mesmo lugar.

E, de repente, sem me contar o final daquele conflito, o índio partiu para os finalmentes. Arrematou ele o relato com uma “moral” da história: “quem tem dificuldade de aceitar essa realidade, que não se aventure nessa tal política. Que não peça para ser cacique. Preserve a liberdade de se limitar a jogar o jogo de acordo com o que os seus filósofos chamam de moral e Lei”.

Ao ouvir o fim do relato do velho Jararaca-sentada, já com os lábios e a língua enegrecidos pelo cacau amargo a 100%, cheguei a uma conclusão. Disse-lhe: “olha, ‘seu’ Jararaca-sentada, o chocolate fica por minha conta. Foi mais do que pago por esse seu relato tão cheio de peso. Não consigo nem sorrir nem chorar ao ouvi-lo. Mas ele me traz uma conclusão: essa tal de política não é mesmo para mim. Odeio injustiças. Não consigo vê-las e aceitá-las calado. Para mim a escolha sempre seria fazer o que ‘é certo’, não o que é ‘necessário’. Aliás, ‘seu’ Jararaca-sentada, concluo nossa conversa dizendo que a sua narrativa me fez lembrar do nosso país natal no momento atual. Não sei por que, mas enquanto o Sr. falava eu sonhava acordado e via a floresta como o Brasil. Que loucura, não? Deve ter sido esse vinho branco de Valais que pedimos para acompanhar o chocolate”.


Fim?

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