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5.7.17

Datafolha e 2018: jacaré da esquerda “pode” abrir boca e engolir direita. Condicional: “pode”!

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Datafolha e 2018: jacaré da esquerda “pode” abrir boca e engolir direita. Condicional: “pode”!


Por "Dom Cesar" (*)

Caro Romulus,


1- Fazendo uma simples análise visual no gráfico apresentado é possível identificar de imediato a figura do "jacaré abrindo a boca".

Significa dizer que mantidas as linhas de tendência da centro-esquerda versus centro-direita (primeira figura do jacaré) e logo abaixo esquerda versus direita (segunda figura do jacaré) em outubro de 2018 as linhas de centro-esquerda e esquerda estariam em ascendência e as linhas de centro direita e direita estariam em descendência, seguindo o comportamento natural do desenho da boca do jacaré.

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2-Do ponto de vista da análise gráfica existiriam chances reais de vitória das esquerdas sim, não resta dúvida.

Do ponto de vista prático o problema é a falta de ação coordenada da esquerda como um todo, onde partidos como Rede, PSOL e outros com menor representação fazem o jogo político da direita e contribuem em muito na estratégia de liquidar as esquerdas e os movimentos trabalhistas e sociais.


3-A base amostral da pesquisa Datafolha para o mês de junho de 2017 indicou que os brasileiros teriam viés ideológico assim distribuídos:  esquerda mais centro esquerda teriam 41%, direita mais centro direita 40% e o centro 20%.


4-Na projeção para a base outubro de 2018 (acompanhando a evolução natural das linhas de tendência gráfica) a esquerda mais centro esquerda teriam 46%, a direita mais centro direita 37% e o centro permaneceria com os mesmos 20%.


5-Como dito antes, tanto as linhas de tendência centro-esquerda versus centro-direita formam o primeiro desenho da boca de jacaré. A linha de tendência de centro permanece estável em 20%. As linhas de tendência da direita e esquerda apresentam o segundo desenho da boca de jacaré.


6-Trata-se de uma análise meramente gráfica, não podemos deixar de pensar que as variáveis acima envolvem o comportamento e pensamento humano de massas, suscetíveis a diversas outras variáveis como a situação econômica e política do país e a influência da mídia em suas diversas formas.


7-Temos também que levar em conta alguns problemas ligados às perguntas e premissas formuladas pela pesquisa (muitas delas enviesadas), onde as respostas são binárias, tipo contra ou a favor, não existindo sequer uma zona intermediária. Além disso o modelo básico da pesquisa é rudimentar do ponto de vista probabilístico, não leva em conta as exceções existentes e suas probabilidades para cada tipo de pergunta da pesquisa.


8-Por exemplo, inferir que 100% dos que defendem armas de fogo são de direita, quando isto não é verdade. Podemos ter pessoas de direita que detestam armas e esquerdistas que adoram armas.

Como vemos o modelo é rudimentar, sequer utiliza a probabilidade condicional para compensar estes desvios ligados ao modelo que se decidiu adotar.


9-De qualquer forma o gráfico apresentado pelo Datafolha indica para outubro de 2018 uma vitória das centro esquerdas e esquerdas, com 9 pontos percentuais de vantagem sobre a centro direita e direita.

Esta vantagem pode aumentar ainda mais quando a população começar a perceber até as eleições o quanto foi vilipendiada em seus direitos com as reformas trabalhistas, previdenciárias e a PEC do teto.


10-Citando alguns exemplos, das atuais novas vagas de trabalho que começam a surgir na economia a maioria é sem carteira assinada e sem os direitos e benefícios que outrora existiam.

Novamente citando a Folha de São Paulo, matéria publicada no mesmo dia aponta que dívidas põem 61 milhões de brasileiras com nome sujo na praça, recorde desde o ano de 2012.


11-O país com certeza sofrerá uma incrível involução no índice Gini, que mede a desigualdade social e a distribuição de renda da população.

Em 2018 certamente o eleitor brasileiro lembrará da época dos governos trabalhistas, onde as camadas mais pobres da população eram lembradas e tinham uma posição relevante na montagem do orçamento público.

(*) "Dom Cesar" é executivo na indústria de óleo e gás, com experiência na análise da conjuntura e projeção de cenários para o "Mercado".


*

Reações

(A) Uma voz a favor de uma “guinada à esquerda”:

Por Luis Felipe Miguel, em seu perfil no Facebook:

A Folha dá outra manchete para os surveys de seu instituto de pesquisa e observa um crescimento da "esquerda" na população brasileira. O resultado é baseado em índice criado a partir das respostas a 16 perguntas. É de esquerda, por exemplo, quem responde que a pobreza "está ligada à falta de oportunidades iguais". A resposta da direita é que a pobreza "está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar". A resposta de que a pobreza é consequência de desequilíbrios estruturais do capitalismo não é uma alternativa.

Questões sobre economia, sobre direitos e sobre valores são misturadas livremente. Foi considerado de direita quem concordou com a afirmação "quanto menos eu depender do governo, melhor será minha vida", interpretada como uma oposição aos programas sociais. Mas quem discordaria dela, sabendo que os benefícios recebidos do Estado podem a qualquer momento ser ameaçados por algum governo golpista? Melhor não depender mesmo.

Em suma, a pesquisa é um planetário dos erros metodológicos e da ingenuidade epistemológica que caracteriza grande parte dos surveys e da construção de índices, algo sobre o qual falei outro dia. Creio que seu valor como perscrutação das posições "ideológicas" (posição no eixo esquerda-direita não é "ideologia", mas essa é outra discussão) dos brasileiros tende a zero.

Poucas páginas adiante, o colunista Celso Rocha de Barros dá seu pitaco sobre o que é a esquerda e qual devia ser seu programa, a propósito do livro de Ruy Fausto. Elogia no livro o objetivo de "livrar" a esquerda de "heranças totalitárias e populistas".

São dois adjetivos que me provocam arrepios. Como conceito, "totalitarismo" é uma invenção da Guerra Fria, elaborado para estabelecer uma identidade política entre a União Soviética e a Alemanha nazista (ambas "totalitárias"), em oposição ao fato de que os países do Eixo e o autodenominado "mundo livre" eram duas variedades da dominação burguesa. Teve versões mais sofisticadas, como a de Hannah Arendt, mas, fora do contexto da Guerra Fria, mostrou-se um conceito inservível. Transitou para a linguagem corrente designando simplesmente um autoritarismo muito forte, tingido - e aí está o pulo do gato - pela ambição de transformar radicalmente a sociedade. É esse o ponto, parece, que incomoda mais a Barros. Já o populismo tornou-se um passe-partout conceitual para enquadrar negativamente tudo o que cheira a compromisso com a resposta imediata às demandas mais prementes dos pobres.

Essa interpretação do significado de "totalitarismo" e "populismo" é consistente com a principal crítica que Barros faz a Fausto (cujo livro, convém deixar claro, eu não li). Ele "teme" que as incursões "pelo tema do 'anticapitalismo', embora nuançadas, possam favorecer a esquerda economicamente irresponsável".

Este é o ponto: talvez uma linha divisória entre esquerda e direita seja a aceitação ou não do critério de "responsabilidade econômica" definido pelo capital. Nesse caso, Barros devia se eximir de ficar na posição de porta-voz de uma posição que não é a sua.


(B) Outra voz. Esta, contrária à viabilidade eleitoral de uma “guinada à esquerda”.

(posição essa à qual me filio)

Por Ricardo Cappelli, em seu perfil no Facebook:

DATAFOLHA DEMOLIU TESE DE “GUINADA À ESQUERDA”

A pesquisa Datafolha apontou o que todas as pesquisas têm apontado. Temos 10% de eleitores de esquerda, 31% de "centro"-esquerda, 10% de direita, 30% de "centro"-direita, e...

- ... 20% de CENTRO!!!

Setores da esquerda, após o impeachment, passaram a defender uma guinada à esquerda computando a queda de Dilma, e as fragilidades do projeto popular e democrático, a uma conciliação com setores médios, centristas, "inaceitável".

A pesquisa demonstra justamente o contrário. Quem decide a eleição é o eleitor médio, os 20% que é conservador nas questões comportamentais e progressista na economia.

Nada menos que 83% dizem que "acreditar em Deus torna as pessoas melhores".

Se a esquerda tem como projeto ir para o gueto, entregar o centro político e, consequentemente, o poder para direita, e "curtir" uma oposição com a eleição de uma bancada, a guinada à esquerda é um ótimo caminho.

Agora, se quer voltar a disputar a hegemonia na sociedade brasileira terá que se despir de esquerdismos ridículos e infantis e voltar a dialogar de forma ampla, parar de dividir o mundo entre golpistas e não golpistas e olhar para o eleitor médio, que se decepcionou com Dilma mas não automaticamente "mudou de lado".

Para eleger deputado talvez o discurso sectário resolva.

Para voltar a dirigir o país teremos que reconquistar o eleitor médio com muito pé no chão, capacidade de reconhecer nossos erros, parar de apenas repetir o passado e conseguir apontar perspectiva de futuro.

A disputa está aberta.

Resta saber se entraremos no jogo para ganhar."

*

Bônus – um off topic não tão off assim:

- O avanço das igrejas evangélicas nas populações vulneráveis; e...

- O recuo das “máquinas” político-eleitorais tradicionais da esquerda no mesmo segmento.

Do mesmo Ricardo Cappelli, também em seu perfil no Facebook:

POR QUE IGREJAS EVANGÉLICAS? UMA REFLEXÃO NECESSÁRIA

Quem é o maior empregador do Brasil hoje?

Acertou quem disse Shoppings Centers. O processo de desindustrialização é avassalador. A participação da indústria no PIB está retornando aos patamares do início do século XX. Somos cada vez mais uma sociedade de serviços.

Temos mais de 20 milhões de pessoas ganhando até 1,5 salário mínimo. Salários baixos, baixa qualificação e alta rotatividade. Este é o perfil da grande massa de trabalhadores brasileiros.

O que pensam? Como dialogar com eles?

Os sindicatos representam uma parcela importante dos trabalhadores. Militantes valorosos se revezam há décadas nestas estruturas. São lugares de debate político e organização fundamentais.

Mas onde fica a grande massa que atua nos mais variados serviços com alta rotatividade e sem qualquer identidade sindical?

Onde ficam os desempregados?

E as “donas de casa”, muitas chefes de família?

E a juventude da periferia?

Se engana quem imagina que as igrejas evangélicas sejam apenas espaços de pregação religiosa.

Elas acolhem desempregados, dependentes químicos, mães desesperadas, transmitem esperança de dias melhores e até arrumam emprego. Tentam recolocar no mercado pessoas excluídas pelo sistema, desiludidas. Algumas prestam todo tipo de serviço no vácuo do poder público. São locais de solidariedade e de acolhimento. Com os espaços públicos deteriorados, se transformaram num espaço de sociabilidade, de encontros. A correria e a dureza do dia a dia afastam. A igreja aproxima.

Nos sindicatos e nos partidos você ouve orientações e discursos. Nas igrejas é escutado, é visto, conhece pessoas, sua experiência pessoal é reconhecida e valorizada. Todos os problemas são "visíveis" e, na medida do possível, tratados. Não precisa ser trabalhador desta ou daquela empresa, ser sindicalizado, ter esta ou aquela posição ideológica. Vale todo mundo.

O Rio de Janeiro, principal cartão postal do país, está sendo governado por um Bispo de uma das igrejas mais questionadas. Fenômeno isolado? Acaso? Conquistam corações e mentes, o voto, a contribuição financeira e a militância de seus fiéis é consequência natural.

São conservadores em questões comportamentais e progressistas na economia, defendem o Estado porque necessitam dele objetivamente.

Ao invés de atacar de forma sectária ou tentar negar o papel destas organizações, a esquerda deveria refletir, e até aprender com elas.

*

Recomendações de leitura... "polêmicas"

(e que me deram muuuita dor de cabeça nas redes sociais... rs)







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Vou fechar repetindo o título do post:

<<Datafolha e 2018:
Jacaré da esquerda “pode” abrir boca e engolir a direita.
Condicional:
“Pode”!>>


E repetindo a minha assinatura de TODOS os posts:

 <<Quando perguntei, uma deputada suíça se definiu em um jantar como "uma esquerdista que sabe fazer conta". Poucas palavras que dizem bastante coisa.
Adotei para mim também>>



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Quando perguntei, uma deputada suíça se definiu em um jantar como "uma esquerdista que sabe fazer conta". Poucas palavras que dizem bastante coisa. Adotei para mim também.

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