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5.12.16

Frituras na equipe econômica: “ponte para o futuro” se tornou a pinguela que tem para hoje


Frituras na equipe econômica: “ponte para o futuro” se tornou a pinguela que tem para hoje

Por Ciro 

Os teóricos de conspiração tanto da direita quanto da esquerda imaginam que exista uma cabala de banqueiros que sabem e controlam tudo o que está acontecendo.  Talvez isso até fizesse sentido num passado quando a arte econômica era tanto quanto mais pragmática, entretanto hoje em dia a captura ideológica se tornou tão grande que o mercado realmente acredita piamente naquilo que publica.

Ou seja, a recuperação contratada pela coalizão do impeachment estava realmente esperada, mesmo não havendo nenhuma razão concreta para se acreditar que o ambiente político se tornaria mais estável (a quanto tempo se fala da delação da Odebrecht - alguém imaginaria que essa delação fosse algo menos que uma bomba nuclear sobre todo o sistema político?) ou mesmo que uma economia com problemas sérios de alavancagem não apenas pública mas também privada iria suportar uma contração fiscal e monetária conjunta de tal magnitude.  Alguém realmente esperava que um projeto que ganhou a eleição (populista que seja) pudesse ser substituído por tal "ponte para o futuro" sem nenhum tipo de comoção social?  Alguém realmente esperava que nessa conjuntura de total instabilidade política uma política de profunda austeridade pudesse passar maiores dificuldades?

A construção do discurso anti-corrupção que veio junto com a Lava Jato e o impeachment é populista em sua natureza - não é possível vender a idéia de que é necessário fazer sacrifícios porque não há dinheiro quando ao mesmo tempo se propaga a idéia de que não há dinheiro porque "eles" roubaram.  Uma dessas opções exige sacrifício da população, outra só exige que a população saia as ruas pedindo por sangue - que surpresa que a população tenha escolhido a segunda.


A inflação de 10% em 2015 é culpa da Dilma (conseguiram vender essa mensagem para o grande público). Já trazer a inflação para 4,5% a qualquer custo já em 2017 é uma decisão política deliberada já no início do governo Temer, ainda em sua interinidade. Deve-se lembrar que a "credibilidade" da autoridade monetária dependia na visão ortodoxa desse "A TODO CUSTO".  Entretanto esperava-se (erroneamente) que tal custo fosse bem mais baixo do que o que está sendo cobrado.  Agora ou se recua no aperto monetário e coloca em risco a tal "credibilidade", ou se dobra a aposta e se coloca em risco a continuidade do governo, ou a continuidade de sua participação no governo.

Imagino que a ideia original seria que a mudança do regime (a mídia econômica e consultorias de mercado trataram o impeachment brasileiro nesses termos, mas não foi golpe, claro) e a ascensão de um super-time tecnocrata respeitado internacionalmente e que piamente acredita no credo ortodoxo dos nossos dias pudesse gerar entusiasmo o suficiente no mercado internacional para que estes ignorassem todas as coisas óbvias que se falou acima.  Seria conquistar o mercado para um programa de investimentos, concessões e privatizações por parte de consórcios internacionais em termos mais interessantes para tais investidores.  O mercado iria exigir entretanto algumas reformas antes de trazer seus dólares para cá.

A primeira de todas é a reforma que garante que pagaremos uma dívida que não pode ser paga.  Trata-se da PEC do Teto. A avaliação era que a trajetória da dívida é insustentável, mas o governo colocou na constituição que nós venderemos a mãe e cortaremos a comida dos filhos, mas os juros  pagaremos.  Isso já dá uma certa garantia, especialmente para o investidor que não percebe que os filhos que ficarem sem pão não vão ter brioches também e podem se revoltar contra o pai.

A segunda é a reforma trabalhista criando condições de se fazer uma recuperação do nível de emprego (e assim alguma manutenção da demanda uma vez que a propensão para o consumo é maior quanto menor é a renda) sem resultante crescimento da massa salarial, mais ou menos o que está acontecendo nos EUA agora. O desemprego está baixo, mas a massa salarial não cresce na mesma proporção - ou seja, há mais pessoas trabalhando em subempregos, em trabalhos temporários, em meia jornada, etc.  Ou seja, uma reforma que se permita que se gere empregos mas que se pague mal ao mesmo tempo.

A terceira é a reforma que é realmente a mais necessária e que é a maior preocupação em termos da trajetória de dívida, que é a reforma da previdência. Necessária porque trata de uma questão estrutural e não conjuntural.

Entretanto, como mesmo com desemprego em baixa os americanos do Rust Belt resolveram lançar os dados e arriscar a imprevisibilidade de Donald Trump a terem a perspectiva de mais anos de subemprego, chegou-se a uma situação de tempestade perfeita.  O dinheiro volta para os EUA, isso porque em tempos de instabilidade fugir para o dólar é a melhor aposta, ganha-se (ou perde-se menos) se Trump for um desastre ou se Trump for um sucesso, de qualquer forma, é a opção de menor risco.  Resultado é que não se pode mais contar com o dinheiro do investidor internacional como motor da nossa recuperação.

Ou seja, a "fada da confiança" não passou por aqui.  Como a fada do dente, a fada da confiança nada mais é do que o dinheiro dos pais.  O brasil arrancou um dente permanente e colocou embaixo do travesseiro (PEC DO TETO), só que o papai está viajando fazendo negócios com um tal de Trump.  Nada de fadinha para a gente...

Diante dessa situação, há pânico e confusão total.  E como a culpa do tratamento não estar funcionando é sempre do médico, ele é colocado na berlinda.  O Ministro da Fazenda é fritado e o mesmo trata de tentar colocar a culpa no seu colega de ministério, o presidente do BACEN. Quem será o pato oferecido na frigideira?

Como alternativas dentro da ideologia ortodoxa corrente, as opções seriam 1) ajuste de curto prazo no lado da receita, especificamente CPMF ou reonerações 2) horizonte mais largo para a queda da inflação possibilitando queda mais imediata da taxa de juros. 3) Uma espécie de Quantitative Easing tupiniquim para gerar crédito que pudesse dar folga para as empresas e famílias.  Ou, se fossem muito ousados, as 3 ao mesmo tempo.

Todas essas alternativas sofreriam de alta resistência por parte de alguns setores da coalização do impeachment.

Enquanto isso a lava jato continua a toda.  Imagino que a classe política contasse com o mercado nacional para enquadrar a mídia de forma que se permitisse a anistia e a sobrevivência do sistema político atual com o fim da lava jato.  Isso não aconteceu. Talvez o mercado internacional ache que a lava jato ainda tem como baratear o Brasil ainda mais.


Ou talvez se esteja justamente apostando é na destruição total do sistema político brasileiro para possibilitar a instauração de uma ideologia liberal aberta e livre das velhas elites políticas patrimonialistas, com a predominância de uma nova elite (entenda-se corporações, MP e Judiciário) já capturada ideologicamente.  Se apostarem nisso, correm o risco de perder para essa direita que agora passou a ousar a dizer o seu nome e mostrar a sua cara, e que não é nada liberal.

2 comentários:

  1. Ciro, acho que hoje está se tornando evidente para um número cada vez maior de pessoas que o destino do golpe dependerá dos rumos que puder imprimir à economia. O que ainda não está de todo claro é a percepção de que o futuro da economia e o destino do país estão sendo disputados na mesa de jogo do capital financeiro, num cassino de escala planetária. Este seu artigo, de uma simplicidade e clareza lapidares, traduz para o cotidiano da política brasileira os lances desse jogo. Se todo economista escrevesse como você, seria mais fácil para os simples mortais como eu escapar do engano cotidiano que escorre como veneno da mídia, estando assim mais preparados para lutar contra a barbárie que avança a passos largos pelo país do golpe. Só posso te agradecer por isso.

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    1. Falava exatamente isso hoje: enquanto a maioria da população for analfabeta funcional em economia, impossível discutir política a fundo.

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