Do NEXO Jornal:
Qual o nível de controle civil e de hierarquia no Exército, segundo este especialista
João Paulo Charleaux
24 Set 2017 (atualizado 25/Set 08h19)
NEXO JORNAL
Antropólogo Piero Leirner fala ao ‘Nexo’ sobre os significados e desdobramentos da fala do general Mourão sobre ‘intervenção’ militar no Brasil
Quatro dias depois de o general Antonio Hamilton Mourão ter falado em “intervenção” militar no Brasil, o Exército divulgou uma nota na qual classificou o assunto como “pacificado”.
Um dia antes, em 18 de setembro, o Ministério da Defesa havia publicado um comunicado no qual garantia reinar “um clima de absoluta tranquilidade e observância aos princípios de disciplina e hierarquia” nas Forças Armadas.
Ambas manifestações contrastaram com o clima de surpresa e de apreensão que ainda podia ser visto sobretudo nos meios de comunicação e nas redes sociais, onde comentários pessoais, análises, artigos de opinião e entrevista punham em dúvida a “pacificação” e a “absoluta tranquilidade” às quais as autoridades civis e militares estavam fazendo referência.
Nos bastidores, antes da publicação de ambas as notas, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, havia cobrado explicações do comandante do Exército, o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas. A medida tinha a intenção de demonstrar que a cadeia de comando estava mantida.
Para o antropólogo Piero Leirner, no entanto, Jungmann “fez besteira”. O professor de antropologia na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) pesquisa desde os anos 1990 a hierarquia militar e sua relação com sistemas de parentesco. Ele considera que, a partir da pressão feita por Jungmann, “Villas Bôas então teve que fechar com Mourão, senão o risco de fraturar ia ser grande – e esse é o pior cenário. No entanto, agora temos uma avenida aberta para quem quiser sair falando ficar à vontade”.
Nesta entrevista concedida ao Nexo por e-mail, no dia 21 de setembro, Leirner disse que “as Forças Armadas fizeram uma espécie de arrumação silenciosa pós-ditadura [1985]”.
Segundo ele, “nenhum dos nomes que apareceu envolvido em tortura [durante a ditadura, de 1964 a 1985] subiu na cadeia de comando. Isso foi um jeito de afastá-los, e ao mesmo tempo de levar adiante um projeto de profissionalização e despolitização das Forças, especialmente do Exército”.
Leirner falou também sobre as teses sobre desmilitarização da Polícia Militar no Brasil e sobre o grau de subordinação real das Forças Armadas brasileiras ao poder civil. Ele também comentou o ponto de vista dos militares em relação a uma sociedade que, desde a redemocratização, se distanciou do debate sobre políticas de defesa.