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Atualizado em 7/12: O <<juízo final>> no STF hoje Queria poder dizer que criei esta montagem, mas não......

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3.10.16

Que Dória que nada! Sr. Indiferença e lobbies vencem eleições de 2016

Que Dória que nada! Sr. Indiferença e lobbies vencem eleições de 2016

Por Romulus
(I). Centros e grotões
No Facebook o amigo Ciro d’Araújo constata:
"Eleição do Rio ganhou o não votar. Abstenção foi maior do que a votação do Crivella. Depois disso veio brancos e nulos, que somaram mais votos que o Freixo".
Sim, no Rio... uma das cidades mais politizadas do Brasil, que tantas vitorias deu a Brizola e a Lula (inclusive em 89). Dois líderes do campo popular que ousaram ciscar ali... no terreiro da Globo.
Em São Paulo não foi diferente: o candidato “Sr. Indiferença” – a soma de abstenção + votos brancos + votos nulos – ganhou a eleição para prefeitura. Ou melhor, “no tapetão” da lei eleitoral, acabou perdendo para o segundo colocado: João Dória. O tucano teve mais de 10 mil votos a menos que o “Sr. Indiferença”.
Se em São Paulo e no Rio (e também em Belo Horizonte!) foi assim, imaginem-se os números nos "grotões" – expressão pejorativa infeliz, aliás... celebrizada por colunistas políticos da grande mídia do eixo...
– ... Rio-São Paulo!
Mais humildade, colunistas das metrópoles...

Aliás, diante de tal grau de alienação, será ainda adequada essa dicotomização geográfica do voto? Pode-se ainda falar em “grandes centros” e “metrópoles” vs. “grotões”?
Bem, se os colunistas tiverem apego e quiserem continuar usando a expressão preconceituosa para com os interiores, melhor seria generalizar então a sua abrangência: falemos agora de “grandes grotões” vs. “pequenos grotões”... ou “grotões centrais” vs. “grotões periféricos”...
Que tal?
O que preferirem, Srs. colunistas. Sintam-se à vontade: não cobro royalties.
*
(II). Critério democrático
Creio ser mais democrático esse uso generalizado da expressão, não?
Se bem que... “mais democrático”? Critério um tanto démodé no Brasil de 2016, não? Há até quem o considere subversivo, ora vejam! Bem, melhor deixar a discussão terminológica de lado e seguir adiante na análise, antes que me acusem de saudosista. Ou pior: de “viúva da Constituição”... ou de “viúva da democracia”!
Tempos brabos! Vai que um japonês "da Federal" – usando tornoseleira eletrônica (!) – bate na minha porta às 6 da manhã e me conduz coercitivamente. Para ser então perguntado, inquisitorialmente:
– Que tal "democracia" é essa, elemento?
– Caaaalma, Sr. Juiz! Não precisa de prisão preventiva para arrancar minha delação. Eu falo da democracia livremente: cresci nos anos 80, ouvindo falar muito dessa tal. Costumavam dizer que era “incipiente”... “imatura”... e que precisava ser “aprofundada”. Falavam isso certamente baseados na crença (excessiva?) no processo civilizatório. Na certeza de que esse não anda para trás... acreditavam no tal do “progresso” da bandeira, sabe? Ora, que nada! A tal da “incipiente”, “imatura” e “superficial” morreu ainda menina... assim, virou anjinho! Uma hora bateu suas asinhas e foi-se embora destas paragens...
– Ah, foi-se embora, elemento? Para onde?
– Difícil precisar, Sr. Juíz... anda muito discreta hoje em dia: Trump nos EUA, Le Pen na França, Brexit xenófobo no Reino Unido, “não” à paz na Colômbia...
– E quando é que ela volta para o Brasil, elemento?
– ...
*
(III). Como chegamos aqui (1)
A demonização da política logra pouco a pouco o seu intento: um grau ainda maior da já alarmante alienação da população brasileira, alheia a tudo e a todos nas instâncias do poder.
A população está:
(i) Saturada da política e dos políticos, todos “farinha do mesmo saco”; e portanto...
(ii) dessensibilizada/anestesiada diante dos sucessivos fatos políticos; e portanto...
(iii) indiferentecínica.
– Tanto faz como tanto fez...
*
(IV). Patrimonialismo versão millennial
E assim, sem o contrapeso mínimo das urnas – magrinhas, magrinhas, coitadas... – e de bases eleitorais atentasativas e mobilizadas, fica mais fácil ainda impor a agenda dos lobbies dos diversos setores da economia em prejuízo do todo da sociedade. Trata-se da versão millennial do velhíssimo patrimonialismo... lá do Weber e do Raimundo Faoro, lembram?
Se o Estado mínimo e a “privataria” não passam no teste das urnas, dá-se golpe, todos (já) sabemos.
Mas isso não significa que antes, durante e depois do golpe não se possa aproveitar a estrutura existente do Estado em favor de certos interesses particulares, não é mesmo?
(a) Como?
– Com a autoridade devidamente “capturada" pelos lobbies (regulatory capture).
(b) O entrave:
– O poder político... “essa gente” eleita que “não entende nada da parte técnica”, escolhida de 4 em 4 anos por “gente que entende menos ainda!”. Imaginem: a maioria deles não tem nível superior, não passou por disputados concursos, não tem pós-graduação no exterior... sequer frequenta colóquios bacanas dos stakeholdes todo mês, ora!
(c) A solução:
– A busca cada vez maior de independência – em face desse tal “poder político” – dos órgãos do Estado judicantes, com poder de polícia e reguladores.
Notem que “coincidência”:
– Não parece muito mais fácil implementar essa agenda independentista num contexto de (i) desgaste da classe política, (ii) vácuo de poder, (iii) déficit de representação e (iv) cinismo da população, culminando numa democracia sem vigor, abatida pela indiferença e caracterizada por baixas taxas de votação?
Evidente que sim!
Resistir à sanha independentista quem haverá de?
(d) Exemplo de captura?
– A famosa porta-giratória (revolving door), que faz o diretor do Banco Itaú (e antes desse o do Bank Boston e antes desse o do George Soros e antes desse...) virar Presidente do Banco Central do Brasil. Apenas para amanhã voltar ao Itaú (e congêneres...) com o passe ainda mais valorizado.
(e) Sonho de consumo dos independentistas?
Escrever “em pedra” a pretendida independência diante da sociedade e de seus representantes eleitos.
Como?
Com leis de boa governança que consagrem essa "independência" – aliás, “boa governança” segundo quem mesmo, hein?
Mandatos fixos de diretores e presidentes... indemissíveis pelo poder político...
– Oh, glória!
Sim, “independência”...
Mas, impertinente que sou, ouso perguntar:
– "Independência" de quem, cara-pálida? Do Itaú – da ida e da volta da porta-giratória – é que não haverá de ser, não é mesmo?
Banco Central é apenas o exemplo mais evidente, em um Estado cuja metade do orçamento foi capturada por rentistas. Mas isso se repete em todos os segmentos econômicos regulados pelo Estado: CVM, CADE, SUSEP, ANVISA, ANP, ANA, ANAC, ANTAQ, ANATEL, ANEEL, ANS, ANTT... ou nos segmentos em que o Estado atua através de estatais (Petrobras, BB, CEF, Eletrobrás...).
E não apenas...
O Supremo não autorizou juízes (!) a embolsar cachês pagos por palestras sem que o seu valor tenha de ser tornado público? Aliás, bota – caché – nisso... nunca uma denominação foi tão adequada!
Para além de “cachês” – escondidos – por “palestras”, que dizer de cursos no exterior pagos por “terceiros generosos” (quem?)? Dentre os quais até mesmo interesses estrangeiros, incluindo governos que não o nosso?
Algo a ver com essas observações aterradoras do Miguel do Rosário, no Blog do Cafezinho?
- Captura do regulador?
- Conflito de interesse?
- Risco moral do regulado (moral hazard)?
- Abuso de poder de mercado dos regulados?
- Ineficiência do mercado viciado?
- Busca de renda por quem é “amigo do rei” (rent seeking)?
Será tudo isso preocupação de marxista radical?
Ou até de quem leu os manuais de Economia (bastante) ortodoxos e que crê – de coração – no capitalismo?
Digo, o capitalismo verdadeiro: com seus “mercados competitivos”, livre entrada de novos competidores e livre saída de empresas ineficientes.
Está aí a telefônica "Oi" para não nos deixar esquecer de como o "capitalismo" (entre aspas mesmo) e seus "riscos" (novas aspas...) “funcionam” (mais ainda...) no Brasil.
E isso não é tudo:
Trata-se apenas de uma das modalidades de captura das autoridades, na classificação proposta por Engstrom. No caso, a captura material. Além (a) da porta giratória e (b) da propina, essa modalidade engloba também (c) os “célebres” financiamentos de campanha e (d) a ameaça de boicote econômico-financeiro ao Estado em caso de “desacordo” com o lobby.
Soa familiar?
Pois é...
Segundo o autor, todas essas sub-modalidades equivalem em alguma medida a corrupção política. Ou melhor: corrupção da política.
Já a captura não material é mais sofisticada: pode ser também denominada “captura cognitiva” ou “cultural”, na qual o regulador – e/ou o juiz e/ou o procurador! – começam a pensar da mesma maneira que o lobby!
- “Lobby”?
- Seria esse apenas o privado?
- Por que não se incluiriam aí também governos estrangeiros?
- Ou terceiros “generosos” querendo iluminar o pobre Brasil de sabedoria?
A assimilação da catequese advém (i) da proximidade (indevida?) entre lobby e autoridades; bem como (ii) da embalagem bonita do “presente” que “generosamente” é dado.
- Aliás, “presente”... será presente de grego a troianos ávidos e ambiciosos?
- Troianos antes circunscritos por uma fronteira, digo, muralha, que impedia o ato de generosidade de se realizar?
- Hmmm...
Saga homérica ou não, chega-se finalmente ao ponto em que as autoridades são pautadas – agora já involuntariamente, na fronteira entre o seu consciente e inconsciente – pelo lobby catequizador.
Exemplo 1:
O lobby já entrega o trabalho pronto – bonitinho e até com grife de banca chique! Assim, como não haverá de prevalecer a lei do menor esforço, tão bem resumida por dois comandos: “Ctrl + C” / “Ctrl + V”?
Algo a ver?
E aqui?
Exemplo 2:
Em tática mais sofisticada ainda, e de longo prazo, o lobby, através do financiamento de pesquisas, colóquios entre pares e lisonjas – tais como premiações – consegue estabelecer – não a sofridas marretadas mas a deleitáveis queijos, vinhos e “verdinhas” – o “consenso científico” em determinado domínio técnico.
Mas notem bem: não qualquer consenso científico, aleatório... trata-se de um consenso científico específico: aquele que o lobby tem por “certo”... aquele para chamar de seu.
Aliás, como acadêmico não posso deixar de me perguntar:
– Se o ponto de chegada já é pré-estabelecido na saída, há que se falar ainda em “cientificidade” para esse “consenso” (olha as aspas aí de novo...).
Pois é... também digo que não.
A maneira como o credo neoliberal impregnou – mediante generosos financiamentos – os maiores centros do conhecimento econômico, do final dos anos 70 até a primeira década do século XXI, é o exemplo de manual (textbook case) dessa tese.
Para quem comungava do credo: dinheiro, fama e glória.
Para quem o criticava: penúria, opróbio e ridicularização.
Fácil chegar a um “consenso” (aspas) “científico” (de novo...) assim, não é mesmo?
Foi preciso a maior crise econômica e a maior recessão desde os anos 30 para que esse “santo graal” caísse no chão e se estilhaçasse. Mas não sem deixar profetas atrasados na Periferia do mundo, ignorantes da (nova) “Boa Nova” do Centro.
[Ver “Trem-bala para o abismo – a política econômica da recessão, de André Araújo, aqui no GGN]
Lisonjas... lobby... captura não material... corrupção da política...
Algo a ver?
(exemplos - infelizmente - não exaustivos)
*
(V). Como chegamos aqui (2): correias de transmissão
Voltando ao início do artigo, falávamos de:
(i) Saturação com a política e com os políticos; e portanto...
(ii) dessensibilização/anestesia; e portanto...
(iii) indiferençacinismo, que levou a...
– Número recorde de abstenções, votos brancos e nulos. O tal “tanto faz como tanto fez”...
Mas atenção para as correias de transmissão que nos trouxeram até aqui:
(a) Noticiário mundo-cão na (e da) política na grande mídia; e portanto...
(b) Demonização da política em geral e de certas forças políticas e certas correntes de pensamento em particular; e portanto...
(c) Dessensibilização / indiferença, desprezo e cinismo; e portanto...
(c) Alta taxa de abstenção e de votos brancos e nulos; o que reflete...
(d) "Bases" (com aspas...) eleitorais alienadas, indiferentes, e políticos eleitos fracos, sem o respaldo de urnas "gordas"; o que cria um vácuo de poder suscetível à...
(e) Busca de independência das autoridades não eleitas.
I.e., “independência” do poder político, bem entendido! Não do segmento econômico regulado e de “terceiros generosos”, no Brasil ou fora dele.
– E quem é que fornece a graxa que faz as polias da grande mídia girarem, girarem e girarem...? Mídia que: (1) produz o noticiário mundo-cão da política; e (2) vende aqueles tais “consensos” (aspas) “científicos” (de novo...) como “a verdade revelada”?
Ora, quem fornece a graxa à mídia são eles mesmos: os lobbies!
Atenção para o "plim-plim"! Num oferecimento de Itaú, Bradesco, Vale, Ambev, seguradoras, indústria farmacêutica, Shell, Gol/Tam, Vivo/Claro...
E assim se fecha o círculo de captura das autoridades não-eleitas pelos lobbies, que passam a buscar independência do poder político para melhor corresponder às expectativas dos patrocinadores. E por que não dizer captura também do eleitorado, nesse caso por omissão (induzida)?
O resultado – de hoje – está aí embaixo, descrito pelo amigo Ciro.
Urnas vazias... cinismo e indiferença... demonização da política... lobbies... captura das autoridades e dos eleitores... tudo isso num círculo infernal.
Nada é “coincidência”.
E as correias de transmissão de que falamos seguiram rodando enquanto você lia este texto.
Como perguntei acima: resistir quem haverá de?
E mais:

*   *   *
Da série "quer que eu desenhe?"
*   *   *
Rapidinha: o temor que a direita tem de Dilma enquanto mito político em construção
Presidenta Dilma vota em Porto Alegre. Apoiadores e imprensa são impedidos pela Justiça e pela truculência da Brigada Militar de registrar o momento do seu voto.
O que temem tanto?
Entenda:
Extrato:
Temer, o PSDB, aliados – e Marina! – terão de aceitar: Dilma continuará sua trajetória rumo a construção de um mito político.
Que ironia!
Mas nada original:
Não foi o julgamento injusto e a pena de morte que tornaram Sócrates maior como figura?
Sem entrar em debate teológico / histórico: não foi o julgamento injusto e o sacrifício de Jesus de Nazaré (Deus e/ou homem) que fundou uma fé?
Pois é...
O mito do homem (e da mulher!) justo, injustiçado por poderes corrompidos ou por uma democracia já degenerada pela demagogia, cala fundo na psique humana. Existe desde que o mundo é mundo.
No golpe contra Dilma Rousseff de 2016 temos os dois: poderes corrompidos aliando-se a demagogos (i) nas corporações do Estado – STF/Justiça, PGR/Janot, PF; (ii) nos grandes grupos de imprensa familiar; e (iii) nas instituições da sociedade civil organizada – OAB, FIESP, CNA, FEBRABAN, igrejas, etc., para julgar – e condenar! – alguém unanimemente reconhecida como justa.
Dessa perspectiva, os algozes de Dilma "fizeram a sua fama". Da mesma forma que, a seu tempo, o Sinédrio e os Romanos – secundados também por populares em frenesi, não é mesmo? – aumentaram a de Jesus de Nazaré, homem e/ou Deus. E ainda, o tribunal popular ateniense aumentou a dimensão da figura do filósofo Sócrates, ao condená-lo de forma iníqua à morte por envenenamento com cicuta.
Quantos outros exemplos não haverá desse mito?
Joana D'Arc queimada na fogueira da inquisição, Tiradentes enforcado e esquartejado como bode expiatório, Dreyfus, vítima do antissemitismo e de uma armação, o suicídio de Vargas, instado pelas mesmas forças que agora golpearam, novamente, a democracia no Brasil...
Deve-se ter cuidado ao brincar de feiticeiro. O caldeirão pode transbordar e queimar quem se supunha mais esperto do que de fato era.
Como disse uma certa justa tratada com iniquidade atroz:
– A vida é dura, Senador!

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